"Nunca vi rastro de cobra nem couro de lobisomem..."
— composição de Antônio Barros ("Homem com H"), imortalizada na performance de Ney Matogrosso.
A Subversão do Rastro: na voz de Ney, o rastro de cobra é o mito, o invisível, o que o "Homem com H" nega ou desconhece. Nós retomamos essa metáfora para torná-la presença.
Se historicamente a cobra foi o símbolo usado para carimbar as mulheres com a marca do pecado e da desobediência, aqui nós abraçamos essa insurreição. A cobra representa o conhecimento que atravessa as frestas do patriarcado.
Minha tia-bisavó foi uma insurgente de uma coragem quase impensável para o seu tempo. Na década de 1920, em uma sociedade brasileira profundamente conservadora, ela publicou "Virgindade anti-higiênica: Preconceitos e convenções hipócritas" e "Virgindade inútil: Novela de uma revoltada" — títulos que, por si sós, eram um confronto direto aos pilares morais da República Velha.
Ercília não apenas escreveu; ela denunciou a hipocrisia do patriarcado, a exploração econômica feminina e o controle obsessivo sobre os corpos das mulheres. Seu vanguardismo cobrou um preço alto: ela foi perseguida, presa e torturada. O rastro de sua vida física teve um final incerto, envolto no silêncio imposto aos rebeldes.
Meu nome é Renata e sou sobrinha-bisneta de Ercília. Assim como tantas mulheres, cresci em contextos em que as leituras feministas eram ausentes. Durante décadas, a vida e a obra de minha tia-bisavó foram veladas pelo silêncio familiar e envoltas em brumas de mistério — como se sua coragem fosse um segredo a ser preservado ou um escândalo a ser contido.
Uma das vozes que impediu que o rastro de Ercília fosse apagado foi a de minha querida Vó Bel. Foi ela quem me narrou as histórias de resistência, como a de mulheres da família que, desafiando a autoridade, encontravam-se com a feminista proscrita às escondidas do patriarca.
Hoje, percebo que o rastro de Ercília não apenas resistiu, como ainda viceja. Este projeto nasce do meu desejo de torná-lo ainda mais nítido e profundo. Quero levar o pensamento crítico inclusive a lugares onde ele raramente alcança, entregando a leitoras e leitores essas poderosas ferramentas de libertação de que se tratam os livros.
Iniciar esta corrente com "O mito da beleza" de Naomi Wolf é a minha forma de garantir que o rastro de Ercília seja visto, seguido e multiplicado. Escolhi esta obra como ponto de partida por sua capacidade de desmascarar as pressões estéticas que hoje funcionam como formas ardilosas de controle social, sendo o primeiro passo essencial para romper amarras como aquelas que foram combatidas pela minha tia-bisavó.
Naomi Wolf é uma das intelectuais mais influentes de nossa era. Em O mito da beleza, ela demonstra que a obsessão pela perfeição física não é vaidade, mas uma poderosa e lucrativa arma política para substituir as barreiras que as mulheres derrubaram. Wolf revela como o padrão estético funciona como uma "anestesia social", desviando nossa energia vital e controlando nossos corpos.
Em um país onde a mulher é extremamente objetificada e que lidera o ranking mundial em números de cirurgias plásticas, a leitura da obra de Wolf é um ato de autodefesa contra a mercantilização da nossa existência.
Ajude-nos a mapear o rastro desta corrente. Queremos registrar sua presença nesta jornada literária.
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